Em fevereiro de 2020, publicámos neste espaço uma breve análise sobre os riscos que o Fundo Monetário Internacional identificava no setor imobiliário.

O mundo estava então a poucos dias de entrar num período que viria alterar profundamente muitas das previsões económicas existentes. Seguiram-se uma pandemia, uma subida acentuada da inflação, o regresso de taxas de juro significativamente mais elevadas, conflitos internacionais e sucessivas alterações nas condições económicas e financeiras.

Seis anos depois, regressar àquela análise permite-nos fazer algo mais interessante do que simplesmente verificar se uma previsão se concretizou: perceber o que mudou e, sobretudo, aquilo que permaneceu.

Os preços continuaram a subir

Os números são expressivos.

De acordo com o FMI, no final de 2025 os preços da habitação em Portugal encontravam-se cerca de 180% acima dos níveis de 2015, enquanto na área do euro o aumento acumulado no mesmo período foi de aproximadamente 56%.

A tendência manteve-se no início de 2026. Segundo o Eurostat, no primeiro trimestre os preços das casas em Portugal aumentaram 17,8% em termos homólogos, a maior subida registada entre os países da União Europeia.

O FMI estima ainda que os preços da habitação em Portugal possam encontrar-se entre 20% e 40% acima dos níveis sugeridos pelos seus modelos de equilíbrio de longo prazo.

São números que justificam atenção. Mas não necessariamente conclusões precipitadas.

O mesmo risco, mas não exatamente o mesmo mercado

Em 2020, uma parte importante da preocupação estava relacionada com a ligação entre valorização imobiliária, crescimento do crédito e vulnerabilidade financeira.

Hoje, a leitura é mais complexa.

O FMI considera que o crédito hipotecário não foi o principal responsável pela forte valorização dos preços da habitação em Portugal ao longo dos últimos anos.

O volume de novo crédito destinado à aquisição de habitação representou, em média, menos de metade do valor das transações imobiliárias realizadas nos últimos anos.

Entre os fatores apontados encontram-se a procura de não residentes, a utilização de poupança das famílias portuguesas na aquisição de imobiliário e, sobretudo, uma oferta que tem demonstrado dificuldade em responder ao aumento da procura.

Isto não significa que o crédito tenha deixado de ser relevante.

Pelo contrário. O financiamento à habitação voltou recentemente a acelerar, registando um crescimento homólogo próximo de 10% no primeiro trimestre de 2026, razão pela qual o FMI recomenda que a evolução do mercado continue a ser acompanhada de perto.

A oferta tornou-se parte central da questão

Talvez seja esta uma das diferenças mais relevantes entre a discussão de 2020 e a de 2026.

A análise atual do FMI coloca uma parte significativa do desequilíbrio do mercado português do lado da oferta.

Construção insuficiente, processos de licenciamento demorados, limitações urbanísticas, utilização pouco eficiente de parte do parque habitacional existente e algumas ineficiências no mercado de arrendamento ajudam a explicar por que razão a oferta não acompanhou a evolução da procura.

O problema da habitação deixa assim de poder ser observado apenas através do preço ou das condições de financiamento.

É também uma questão de território, disponibilidade, utilização do património existente e capacidade para produzir nova habitação onde ela é necessária.

Risco não significa necessariamente crise

Há outro elemento da análise do FMI que importa não ignorar.

Apesar da evolução dos preços, a avaliação realizada em 2026 considera o sistema financeiro português globalmente resiliente e os riscos sistémicos moderados.

Nos testes de esforço realizados, os bancos demonstraram capacidade para absorver cenários adversos significativos, incluindo fortes correções dos preços imobiliários.

Por isso, identificar riscos não equivale a antecipar uma crise.

Significa reconhecer desequilíbrios, compreender a sua origem e acompanhar os fatores que podem alterar a sua evolução.

Seis anos depois, compreender continua a ser essencial

Olhando para 2020 a partir de 2026, talvez esta seja a conclusão mais interessante.

Os preços subiram muito mais do que então seria fácil antecipar. As taxas de juro fizeram entretanto um percurso igualmente difícil de prever. O mercado atravessou uma pandemia, inflação, alterações regulatórias e profundas mudanças económicas e sociais.

E, ainda assim, algumas das questões permanecem.

Qual a relação sustentável entre preços e rendimento? Como aumentar a oferta de habitação? Que papel deve ter o crédito? Como utilizar melhor o património já existente? E como distinguir uma tendência conjuntural de uma transformação estrutural?

Não existem respostas simples — nem provavelmente uma única resposta para todo o território ou para todas as pessoas.

É precisamente por isso que acompanhar o mercado não deve significar apenas acompanhar preços.

Significa compreender os fatores que os explicam, o contexto em que se formam e aquilo que podem representar para quem compra, vende, investe, gere ou simplesmente procura tomar uma decisão patrimonial mais informada.

Leia também: FMI prevê riscos no imobiliário — 2020

Fontes: Fundo Monetário Internacional (FMI), Portugal — 2026 Article IV Consultation e Financial System Stability Assessment; Eurostat, House Price Index — 1.º trimestre de 2026.
Mercado, Visão UH